Regulação emocional e crises sensoriais

A regulação emocional e o controlo de crises sensoriais são aspetos centrais no acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estas dificuldades podem impactar de forma significativa a qualidade de vida, o bem-estar psicológico e a integração social.

O que é regulação emocional?

Regulação emocional consiste na capacidade de:

  • Reconhecer as próprias emoções.

  • Compreender os sinais fisiológicos associados (por exemplo, tensão muscular, batimento cardíaco acelerado).

  • Modular respostas emocionais de forma adaptativa.

No TEA, essa capacidade pode estar comprometida por alterações neurobiológicas e sensoriais. Consequentemente, muitas pessoas apresentam:

  • Dificuldade em identificar sentimentos.

  • Reações desproporcionadas a estímulos menores.

  • Demora em recuperar após situações stressantes.

Exemplo prático:
Um adolescente pode reagir com gritos prolongados quando contrariado, não por vontade de manipular, mas porque não consegue gerir a frustração intensa associada à mudança.

O que são crises sensoriais?

Crises sensoriais, muitas vezes chamadas meltdowns, resultam de sobrecarga do sistema nervoso perante estímulos acumulados ou demasiado intensos. É importante diferenciar estas crises de birras, pois:

  • Não são intencionais.

  • Não visam controlo do comportamento dos outros.

  • São reações fisiológicas e emocionais extremas.

Durante uma crise sensorial, a pessoa pode:

  • Tapar os ouvidos ou olhos.

  • Gritar ou chorar.

  • Correr para longe ou deitar-se no chão.

  • Ter movimentos repetitivos vigorosos (bater com as mãos, abanar a cabeça).

Por que acontecem?

Vários fatores contribuem:

  1. Hipersensibilidade sensorial
    Pequenos estímulos podem ser percebidos como invasivos (luz forte, barulhos, texturas).

  2. Dificuldade de antecipação
    Mudanças imprevistas na rotina geram ansiedade elevada.

  3. Limitação na comunicação de desconforto
    Muitas pessoas não conseguem expressar que algo está a ser excessivo.

  4. Acumulação de stress
    Somatório de microacontecimentos frustrantes pode desencadear crises no final do dia.

Estratégias de prevenção

A intervenção precoce e o planeamento ambiental reduzem a frequência e a intensidade destas situações.

Rotinas estruturadas

  • Manter horários previsíveis.

  • Usar agendas visuais ou quadros de tarefas.

Avisos antecipados de mudanças

  • Avisar com tempo sempre que ocorrerem alterações na rotina.

Adaptação do ambiente sensorial

  • Usar protetores auriculares.

  • Controlar a iluminação e o ruído de fundo.

Treino gradual de tolerância a estímulos

  • Exposição controlada a sons ou texturas, de forma progressiva.

Como agir durante uma crise sensorial

  1. Reduzir estímulos

  • Retirar pessoas em excesso e ruídos.

  • Diminuir luzes fortes.

  1. Manter postura neutra e calma

  • Falar pouco e com voz suave.

  • Evitar contacto físico, salvo se solicitado.

  1. Garantir segurança física

  • Prevenir fugas ou autolesões.

  1. Validar o desconforto

  • Frases simples: “Estás em segurança. Eu estou aqui.”

Recuperação pós-crise

  • Dar tempo de descanso e silêncio.

  • Oferecer atividades reguladoras (massagens, pressão profunda, objetos sensoriais).

  • Evitar recriminar ou repreender.

Quando procurar apoio especializado

É indicado procurar ajuda profissional quando:

  • As crises se tornam frequentes e comprometem funções básicas (alimentação, higiene, sono).

  • Há risco de autolesão ou agressividade.

  • A pessoa não consegue recuperar sozinha após episódios prolongados.

Psicólogos, terapeutas ocupacionais e psiquiatras podem elaborar planos personalizados de regulação emocional e treino de competências adaptativas.

Considerações finais

A regulação emocional e o suporte sensorial não são apenas aspetos clínicos, mas direitos fundamentais de todas as pessoas autistas. A abordagem deve ser respeitosa, individualizada e baseada em evidências.

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