Sono e Distúrbios do Sono no Autismo
O sono é um regulador biológico essencial para memória, comportamento, aprendizagem e equilíbrio emocional. No Transtorno do Espectro Autista (TEA), os distúrbios do sono são muito mais frequentes e impactam de forma profunda a qualidade de vida.
Estudos demonstram que entre 50% e 80% das pessoas com autismo apresentam problemas persistentes relacionados ao sono. Apesar da magnitude, a avaliação clínica e as abordagens terapêuticas permanecem subdimensionadas, muitas vezes vistas como “secundárias”.
Este tema não deve ser tratado como detalhe. Sono ruim agrava irritabilidade, piora habilidades sociais, interfere na cognição e amplia comportamentos repetitivos.
🔍 Fisiologia do Sono e Particularidades no TEA
O sono ocorre em ciclos regulados por:
Sistema circadiano (ritmo biológico de 24h)
Hormonas como melatonina e cortisol
Neurotransmissores como serotonina e GABA
Em pessoas autistas, diversas alterações fisiológicas podem interferir nesses sistemas:
🔸 Produção e liberação de melatonina – Vários estudos apontam níveis basais mais baixos e liberação retardada, resultando em dificuldade para iniciar o sono.
🔸 Ritmo circadiano desregulado – Alterações genéticas e sensoriais podem impactar a percepção de luz, temperatura e rotinas.
🔸 Hipersensibilidade sensorial – Sons, toques, luz e textura de roupas podem ativar estados de alerta mesmo durante a noite.
🔸 Comorbidades associadas – Epilepsia noturna, refluxo gastroesofágico, alergias respiratórias e ansiedade são mais comuns em pessoas com TEA e afetam diretamente o sono.
Citação de referência:
“O sono no autismo não é apenas quantitativamente diferente. Ele é qualitativamente distinto.”
– Prof. Beth Malow, neurologista, especialista em distúrbios do sono na Vanderbilt University
📝 Tipos de Distúrbios do Sono no Autismo
O diagnóstico deve considerar que muitos quadros coexistem:
🔹 Insônia inicial
Dificuldade em iniciar o sono (>30 min)
Resistência intensa na hora de deitar
🔹 Despertares frequentes
Despertar várias vezes durante a noite
Dificuldade em voltar a dormir
🔹 Despertar precoce
Acordar entre 3h e 5h sem conseguir voltar a dormir
🔹 Hiperatividade noturna
Padrões de agitação e atividades motoras elevadas
🔹 Sonolência diurna excessiva
Baixo rendimento escolar, irritabilidade, comportamento opositor
🔹 Parassonias
Sonambulismo, terrores noturnos, bruxismo
📊 Prevalência e Impacto
Dados consolidados:
Crianças com TEA têm 2 a 3 vezes mais risco de distúrbios do sono do que crianças típicas. (Sleep Medicine Reviews, 2019)
Adultos autistas mantêm alta prevalência de insônia (>40%).
Sono ruim amplifica crises de ansiedade e reduz a tolerância a frustrações.
🩺 Fatores que Atrapalham o Sono
1️⃣ Ambiente sensorial inadequado – Excesso de luz, ruído, temperatura instável
2️⃣ Ritual de sono inconsistente – Falta de rotina pré-sono
3️⃣ Uso de telas eletrónicas – Supressão de melatonina por luz azul
4️⃣ Comorbidades médicas – Dor crónica, refluxo, alergias
5️⃣ Medicações – Estimulantes, antidepressivos, anticonvulsivantes podem fragmentar o sono
🧪 Pesquisas Recentes e Hipóteses
Estudos avançam sobre o papel da melatonina endógena e gênese genética do sono no TEA:
Mutação no gene ASMT (acetilserotonina O-metiltransferase), importante na síntese de melatonina (Melke et al., American Journal of Human Genetics, 2008)
Relação entre distúrbios do sono e microbiota intestinal, com impacto na produção de neurotransmissores
Investigação do uso de suplementos de triptofano e precursores de serotonina
Estudos com Cannabidiol (CBD) para modulação do ciclo sono-vigília (protocolo em andamento na Universidade de Tel Aviv)
🩹 Tratamento Integrado
O manejo clínico deve ser individualizado e multimodal, combinando:
🛏️ 1. Higiene do Sono
Horário regular para dormir e acordar
Evitar telas no mínimo 1h antes de deitar
Escurecer e silenciar o quarto
Usar cobertores pesados (em casos com boa aceitação)
Criar um ritual de transição previsível e calmo
💊 2. Intervenção Farmacológica
Opções mais estudadas:
Melatonina – Dose entre 1–6 mg, 30 min antes de deitar
Clonidina – Útil em casos com hiperatividade noturna e despertares
Ramelteona – Agonista de melatonina, uso em insônia refratária
Cannabidiol (CBD) – Pesquisado em quadros resistentes, ainda com poucos estudos de longo prazo
Importante: Todas as medicações devem ser prescritas por profissional habilitado, com monitoramento constante.
🧠 3. Terapias Comportamentais
Treino de higiene do sono com reforço positivo
Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) adaptada ao TEA
Terapia de integração sensorial para reduzir hiperresponsividade noturna
📈 Estudos e Avanços em Andamento
Estudo longitudinal de coorte: Avalia o impacto da melatonina prolongada em crianças autistas (University of Colorado, 2022–2025)
Protocolos de estimulação transcraniana (tDCS): Pesquisados como moduladores do ciclo sono-vigília
Modelos de inteligência artificial: Previsão de despertares com base em variabilidade cardíaca e padrões de movimento noturno
Avaliação de dietas específicas (baixa caseína, baixa histamina) no impacto sobre qualidade do sono
Conclusão
Distúrbios do sono não são um sintoma periférico do autismo. São um eixo central que impacta comportamento, aprendizagem e saúde física. O reconhecimento precoce e uma abordagem integrada podem melhorar significativamente o bem-estar e a qualidade de vida.
Ignorar o sono é, em muitos casos, negligenciar a principal causa de sofrimento e instabilidade emocional. A atenção cuidadosa a esse tema deve ser parte obrigatória de qualquer acompanhamento clínico de pessoas com TEA.
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