O Grito Silencioso do Meu Filho

Experiência Ruído

Um Dia Num Mundo que Não Está Pronto Para Ele
Escrevo isto sentada no escuro do quarto do meu filho, ouvindo a respiração dele, finalmente calma. Ele dorme, exausto. Eu também estou exausta, mas o meu coração continua acelerado, apertado por uma angústia que só uma mãe de uma criança atípica conhece.

Um dia horrível
Hoje foi um daqueles dias. Um dia horrível que me lembrou, da forma mais dolorosa possível, o quanto o mundo “lá fora” – especialmente as instituições que deveriam nos acolher – ainda é hostil para pessoas com autismo.

O nosso calvário começou cedo. Tínhamos uma consulta médica de rotina. Para qualquer pessoa, uma sala de espera é apenas entediante. Para o meu filho, foi uma câmara de tortura. O alto-falante que chamava os nomes tinha um defeito; emitia um zumbido agudo, um apito fino que entrava pelos ouvidos como uma agulha antes de cada frase.

Eu segurei a mão dele
Eu vi a mudança imediata no corpo dele. Os ombros encolheram, os olhos se arregalaram em pânico puro. Ele levou as mãos aos ouvidos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando a auxiliar do médico nos chamou, a voz dela, naturalmente estridente, foi a gota d’água. Ele não gritou ali, mas eu vi o esforço sobre-humano que ele estava fazendo para se controlar. Ele tremia. Eu segurei a mão dele, sentindo a sua aflição, impotente para “desligar” o mundo.

Saímos de lá já fragilizados e fomos resolver uns documentos em uma repartição pública. Achei que seria rápido. Que ingenuidade a minha.

A sala estava cheia. O ar pesado. Os funcionários me viram entrar com ele. Viram os fones de cancelamento de ruído no pescoço dele, viram a forma como ele se balançava para se acalmar, viram o meu olhar de preocupação. Alguém nos deu prioridade? Não. Pegamos a senha normal e esperamos.

O ambiente já era um massacre sensorial, mas o pior era o sistema de senhas. Uma campainha. Uma campainha alta, seca e repentina que tocava a cada dois minutos para chamar o próximo. “TRIIIM!”.

Eu só queria abraçá-lo
A cada toque, o meu filho dava um pulo. Na terceira vez, ele não aguentou. O sistema nervoso dele entrou em colapso. Ele surtou. Gritou, chorou, tapou a cabeça. As pessoas olhavam, algumas com pena, outras com aquele julgamento silencioso que fere mais que palavras. Eu só queria abraçá-lo e protegê-lo daquele barulho infernal. Saímos de lá sem resolver nada, com ele em crise e eu em lágrimas.

O trajeto de ida e volta para casa não foi melhor. O trânsito, as buzinas, as obras na rua… tudo era agressão.

Agora, no silêncio da noite, eu penso nisso. O que me dói mais não é o cansaço físico. É a constatação de que o meu filho sofre em silêncio desde o primeiro minuto em que acorda até o último em que fecha os olhos.

Ele vive num mundo onde o volume está sempre no máximo. Para nós, um som ambiente é apenas um incômodo; para ele, pode ser dor física. E o pior? O barulho é só um dos problemas. Ainda há as luzes fortes, os cheiros intensos, as texturas, a falta de previsibilidade.

A sociedade diz que quer incluir, mas as nossas instituições públicas – hospitais, repartições, escolas – não estão preparadas. Elas são agressivas para os sentidos de um autista. Falta empatia, falta formação, falta o básico: entender que um ambiente sensorialmente seguro não é um luxo, é uma necessidade de saúde.

Enquanto o mundo não entender isso, os nossos filhos continuarão travando batalhas invisíveis e dolorosas todos os dias, apenas para existir. E nós, mães, continuaremos chegando ao fim do dia com o coração partido, torcendo para que o dia seguinte seja um pouco menos barulhento.

4 min read 694 words 9 views

Artigos Relacionados

O Pequeno Gigante: Por que o Zinco é Vital para o Cérebro e o Apetite no Autismo

A Verdade Nua e Crua (Análise Crítica): O zinco realmente modula o GABA (o “freio” do cérebro) e o glutamato (o “acelerador”). A deficiência de zinco realmente causa perda de paladar (disgeusia), o que faz a comida ter gosto de papelão ou metal, levando à seletividade. No entanto, autismo não é causado apenas por falta de zinco. Suplementar zinco não vai “curar” o autismo, mas pode aliviar sintomas específicos se houver deficiência comprovada. O perigo desse tipo de texto é os pais saírem comprando zinco na farmácia sem exame de sangue, o que pode causar toxicidade e deficiência de cobre (que é perigoso).

Comentários