Eu não sou estranha. Só sinto o mundo de outro jeito
Oi. Eu sou a Lú.
Demorei 27 anos pra entender que eu não era só “esquisita”. Sempre me disseram isso — desde criança. “Você é inteligente, mas muito na sua.” Ou: “Por que você não olha no olho das pessoas?” Teve até um professor que achava que eu era mal-educada porque eu não sorria quando ele falava comigo. Mas o problema é que… eu não sabia quando era a hora certa de sorrir. Pra mim, sorrir sem motivo parecia falso. E ser falsa sempre me incomodou mais do que parecer antipática.
Na escola, eu me sentia um peixe fora d’água. Enquanto as meninas conversavam sobre roupas, novelas ou garotos, eu só queria falar de dinossauros. Ou de astrofísica. Ou de qualquer coisa que fizesse sentido pra mim. E quando eu começava, era difícil parar. Eu não entendia que as pessoas ficavam entediadas. Eu achava que elas só não tinham interesse suficiente.
Fui crescendo assim, meio sozinha. Tive amigos, mas eram poucos e quase sempre mais velhos. Nunca fui muito de festa. Os sons altos me machucavam de verdade. Tipo fisicamente. Era como se alguém batesse uma panela dentro do meu crânio. Até hoje, se alguém mastiga alto do meu lado, me dá um pânico por dentro que nem sei explicar.
Só fui entender o que estava acontecendo quando uma amiga do trabalho, depois de uma conversa, me falou: “Você já leu sobre Asperger? Acho que você devia.”
Na hora, achei meio ofensivo. Como assim? Ela achava que eu tinha um transtorno? Mas à noite, fui pesquisar escondido. Li tudo que encontrei. Chorei. Pela primeira vez, alguém estava descrevendo exatamente o que eu sentia desde criança. Não era loucura. Nem drama. Nem frescura. Era o meu jeito de ser.
Procurei uma neuropsicóloga. Fiz testes. Conversas. Avaliações. O diagnóstico veio: Transtorno do Espectro Autista, nível 1, com traços de Asperger.
Não foi um choque. Foi um alívio.
Eu não era errada. Eu só era diferente.
Hoje, entendo melhor meus limites. Aprendi que tá tudo bem precisar de silêncio depois de um dia cheio. Que tá tudo bem usar fones de ouvido no metrô, mesmo sem música, só pra não ser invadida pelo barulho do mundo. E que posso avisar quando não quero ser tocada, sem parecer grossa.
Também comecei a explicar pras pessoas, quando sinto abertura. Não pra me justificar, mas pra criar ponte. Porque, às vezes, o que parece frieza é só um jeito diferente de sentir.
E sinto muito, viu? Às vezes, até demais. Só não sei demonstrar do jeito que esperam.
Se você leu até aqui e se identificou com alguma coisa, talvez valha a pena investigar. Não pra se rotular. Mas pra se entender. Porque se conhecer é o primeiro passo pra se aceitar. E se aceitar é o primeiro passo pra ser feliz de verdade — do seu jeitinho.
Com carinho,
Lú.
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