A Lei do “Antes Tarde do que Nunca” Não Cura a Negligência
Imagine que passou a vida toda a tentar ler um livro no escuro. Os seus olhos doem, tropeça nas palavras e toda a gente à sua volta pergunta porque é que é tão lenta ou porque é que não entende o que os outros acham fácil. De repente, aos 40 ou 60 anos, alguém acende a luz e diz: “Afinal, as letras eram diferentes para si”. É isto que esta nova lei tenta fazer ao incentivar o diagnóstico em adultos e idosos. O problema é que acenderam a luz, mas o livro continua a ser difícil de ler e não há ninguém para nos ajudar com as lições que perdemos.
Diz-se que agora há “incentivo”, mas a verdade é que chegámos aqui tarde demais para milhões de pessoas. Durante décadas, fomos invisíveis. Fomos as crianças “esquisitas”, os adultos “difíceis” ou os idosos “isolados”. Agora que o Estado reconhece que existimos, o que é que nos dá além de um papel a dizer o que temos? Um diagnóstico sem apoio é como receber um mapa de um deserto quando já estamos exaustos de caminhar sozinhos. Não há psicólogos preparados para adultos, não há empresas prontas para nos receber e os médicos ainda acham que estas questões são “coisas de crianças”.
O que realmente não funciona é este fingimento de que um laudo resolve tudo. Precisamos de um sistema que não se limite a dar nomes aos problemas, mas que ajude a curar as feridas de quem passou uma vida inteira a tentar encaixar-se num molde que nunca foi o seu. É bom que a lei exista, mas é vergonhoso que tenhamos precisado de tanto tempo para perceber que o suporte não pode ter prazo de validade. Não queremos apenas ser contados nas estatísticas; queremos ser compreendidos e ajudados a viver com dignidade, independentemente da idade que temos no cartão de cidadão.
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