A história de Sara: como o desafio moldou a sua força
Sempre acreditei que meu papel como pai não era apenas proteger, mas também desafiar. Enquanto a mãe da Sara oferecia o porto seguro do colo, eu buscava despertar nela a coragem para avançar além do que parecia possível. Foi um equilíbrio delicado, às vezes até doloroso de assistir, mas hoje, olhando para a mulher que ela se tornou, vejo como cada passo desse processo valeu a pena.
Quando Sara era pequena, eu fazia questão de brincar de forma diferente: não era só bonecas, desenhos ou histórias antes de dormir. Eu criava jogos em que ela precisava arriscar, escalar, correr, se sujar, cair e levantar. Muitas vezes ela chorava, queria desistir. Mas eu estava lá, repetindo: “tenta mais uma vez, você é capaz”. E pouco a pouco, aquele olhar assustado começou a se transformar em confiança.
A ciência hoje confirma o que eu vivenciei no coração da minha casa. Pesquisas mostram que filhos que desenvolvem vínculos fortes com os pais têm menos chance de depressão e maior resiliência. Lembro de ler, anos depois, um estudo enorme com quase 4 mil adolescentes: a proximidade com o pai reduzia o risco de depressão pela metade. Metade! Aquilo que eu intuía com a Sara estava escrito em números frios, mas tão reais.
Na adolescência dela, essa base ficou ainda mais clara. Quando enfrentou o primeiro fracasso na escola, não entrou em desespero. Respirou fundo, reorganizou o estudo e seguiu em frente. Eu percebia ali a mesma menina que um dia eu empurrei no balanço, mais alto do que ela acreditava que aguentaria. O treino de “arriscar” que começara nas brincadeiras tinha se transformado em ferramenta de vida.
Pesquisadores de Oxford já tinham observado isso: o pai não é um detalhe extra na criação, mas uma peça fundamental. Ele introduz o risco controlado, ensina a lidar com os tombos e a se levantar com mais força. E foi exatamente assim que vi a Sara enfrentar os seus próprios “tombos” — desde os pequenos da infância até os grandes da vida adulta.
Lembro também de um trabalho da neurocientista Ruth Feldman que me marcou. Ela descobriu que, quando o pai brinca com o filho, há uma sincronização entre o coração e até as ondas cerebrais de ambos, como se o corpo estivesse programando a forma de se recuperar do estresse para o futuro. Eu sorri quando li isso, porque era exatamente como me sentia: no meio de cada gargalhada da Sara, parecia que meu coração batia no mesmo compasso que o dela.
Hoje, quando a vejo adulta, enfrentando um mundo que nem sempre é justo, percebo que o maior presente que dei à Sara não foram brinquedos ou presentes caros. Foi a insistência em acreditar que ela podia. Foi correr ao lado dela quando aprendeu a andar de bicicleta, até o momento em que soltei a mão e gritei: “Vai, filha, você consegue!”.
Esse papel não é substituir o da mãe. É diferente. É complementar. É mostrar que a vida exige coragem, que o mundo vai ser duro, mas que dentro dela existe força suficiente para enfrentar cada batalha.
E quando penso no futuro, tenho a certeza: a presença ativa e desafiadora de um pai não apenas educa. Ela prepara para viver.
Uma linda história de vida. Beijinhos para a Sara.