Posso te contar um segredo sobre o meu coração?

Filho, hoje quero te contar uma história. É a minha história, a história de uma mulher muito inteligente, que também é tua mãe. Vou falar do jeito simples, como se a gente estivesse numa caminhada vendo o mar, combinados?

Quando eu era pequena, eu sentia que tinha um radar invisível na cabeça. Sabe quando tu ouves o barulhinho do micro-ondas e já sabe que a pipoca está quase pronta? Eu era assim com as pessoas. Antes de alguém falar qualquer coisa, eu já percebia o clima: um olhar diferente, um silêncio estranho, um sorriso meio torto. Parecia magia, mas era só atenção. Uma vez, na escola, a professora entrou séria, apertando os lábios. Ninguém notou. Eu levantei a mão e disse: “Prof, precisa de água?” Ela sorriu, era exatamente isso. Naquele dia, entendi que meu radar podia cuidar dos outros, não assustar.

Crescendo, eu me sentia meio fora do tom, como quando a música toca devagar e o meu pé quer dançar rápido. Enquanto a turma ria de uma piada, minha cabeça já estava pensando em três perguntas: “Por que rimos? O que essa piada diz sobre nós? Como posso contar algo melhor?” Às vezes eu achava que tinha algo errado comigo, como se eu fosse uma chave que não encaixa em nenhuma porta. Demorei para aprender que pertencer não é ser igual; é ter um lugar onde o que a gente é faz sentido.

Eu também sempre tive um coração que pega fogo com injustiça. Um dia, ainda adolescente, vi um colega ser zoado. Meu peito queimou, como se eu é que estivesse sendo empurrada. Fui falar com ele no recreio: “Posso sentar aqui?” A gente ficou amigo. Descobri que empatia boa não afunda ninguém; ela vira ponte. Só que tem um detalhe: quando a gente sente muito, pode querer carregar dores que não são nossas. Aprendi uma regra que me salva até hoje:
“Eu vejo. Eu ajudo no que posso. E o que não posso, eu devolvo pro mundo.”

Outra coisa sobre a mamãe: minha cabeça é tipo um carrossel que não desliga. Gira, revisa, imagina o futuro, volta pro passado, compara, refaz. Antes, isso me cansava. Hoje, quando a mente acelera, eu desenho no papel. Escrevo: “Qual é o problema em uma linha?” Depois três ações pequenas que posso fazer hoje. Executo uma e respiro. Sabe o que acontece? O carrossel desacelera. Pensamento gosta de saída; parado, ele cresce demais.

Eu tenho uma intensidade emocional que parece mar em dia de vento. Quando amo, amo muito. Quando fico feliz, eu transbordo. Quando dói, dói nos ossos. Por muito tempo me disseram: “Você é demais”. Até que eu descobri a palavra certa: eu não sou “demais”; eu sou ampla. E gente ampla precisa de bordas para o amor não virar tempestade: dormir, comer bem, caminhar, pedir abraço, dizer “agora não dá”.

Também tenho uma régua interna que às vezes é cruel. Entrego um trabalho, todo mundo aplaude, e uma voz cochicha: “Faltou um detalhe”. Essa voz gosta de perfeição sem fim, como se a corrida nunca tivesse linha de chegada. Eu brinco assim com ela:
— “Obrigada por querer o melhor. Hoje vamos do bom bastante. Amanhã a gente melhora.”
E eu celebro de verdade: escrevo o que funcionou e o que aprendi. Fecho a pasta e sigo. Celebrar não é frescura; é combustível.

Lembro de quando você me perguntou:
— “Mãe, por que as pessoas morrem?”
Respirei fundo. Essas perguntas grandes me visitam desde criança: “Por que estamos aqui?”, “O que é o tempo?”, “O que é justo?” Eu te dei a resposta mais honesta que tenho: “A gente morre porque a vida tem um ciclo, como as estações. Por isso cada dia importa. Vamos transformar sua pergunta em cuidado?” E naquele dia nós plantamos uma muda na varanda. Filosofia com mão na terra vira sentido.

Tem mais um segredo: às vezes eu fico sensível à rejeição. Um silêncio no grupo, uma mensagem sem resposta, e a cabeça faz um filme daqueles bem dramáticos. Hoje eu faço diferente. Eu confirmo: “Oi, interpretei que você ficou chateado. Acertei?” Metade das vezes era nada. A outra metade, a conversa se ajeita. Descobri que dados ganham de suposições.

E, filho, já vivi uma dança cansativa: esconder minha inteligência para não incomodar, depois querer provar demais para ser aceita. Até que encontrei um jeito que me deixa em paz: competência silenciosa. Eu entrego, documento impacto, agradeço, e sigo. Nem apago meu brilho, nem fico levantando plaquinha.

Quero que você tenha algumas lembranças da mamãe para usar quando precisar:

  • A do ônibus: Um dia, eu estava no ponto e o ônibus demorou. Todo mundo bufando. Eu tirei do bolso um papel e escrevi três ideias para um projeto. Quando o ônibus chegou, eu já tinha um caminho. Aprendi que espera também produz se a gente der tarefa pra mente.

  • A do bolo: Fiz um bolo para um amigo. Ficou ótimo, mas eu pensei: “Podia ter mais uma pitada de canela”. Antes eu ia remoer isso a noite toda. Dessa vez, sorri, levei o bolo, vi o amigo feliz e registrei: próxima vez, canela extra. E fui dormir leve.

  • A da chuva: Um dia choveu forte e eu chorei junto. Não de tristeza, mas porque a natureza parecia tocar uma música que só eu ouvia. Essa lembrança me diz: “Intensidade também é beleza.”

Se um dia você me ver quieta demais, não se assuste. Às vezes eu fico afinando o meu radar. Outras, eu só estou deixando o carrossel da cabeça diminuir a velocidade. Se me vir sorrindo sozinha, pode ser que eu tenha encontrado uma resposta antiga, ou pensado numa pergunta melhor.

E se algum dia você se sentir parecido comigo, com o coração grande, a mente rápida, a vontade de consertar o mundo… saiba: não tem nada quebrado em você. Você é amplo. E gente ampla aprende a construir bordas para que caibam sonhos, pessoas e descanso.

Agora, vem cá. Vamos escolher uma coisa pequena para fazer hoje? Eu voto em três opções:

  1. escrever num papel “o que foi bom no meu dia”,

  2. perguntar a alguém “posso ajudar?”,

  3. começar um projeto de 15 minutos que ajude outra pessoa.

Qual você escolhe? Seja qual for, a mamãe vai junto. Porque, no fundo, o segredo é simples: gente superdotada não precisa caber; precisa florescer. E florescer começa com um passo pequeno, repetido com carinho.

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