Autismo e TDAH: como entendemos e nos conectamos com os outros
1. Introdução
O que vamos falar aqui?
Como as pessoas pensam sobre outras pessoas, como entendem o que os outros sentem e como se comportam em situações sociais. Também vamos ver como isso funciona em quem tem autismo e em quem tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Perguntas centrais:
- Como o cérebro entende o mundo social?
- O que muda no autismo e no TDAH?
- Como medir essas habilidades?
- O que pode melhorar com treino ou tratamento?
Ideia-chave:
“Cognição social” é o nome dado às habilidades que usamos para entender pessoas e conviver bem. Ela mistura duas coisas: social (relações) e cognitiva (pensamento).
Importante: muitos estudos acontecem em laboratório, mas a vida real é diferente. O ambiente (família, escola, cultura) também influencia muito.
1.1. Abordagem “nativista” (foco no que nasce com a gente)
Essa visão olha para o lado biológico e cognitivo: como o cérebro se desenvolve e cria as bases da cognição social desde bebê (sorriso social, imitar, dividir atenção, esperar a vez).
Exemplos de “blocos de construção”:
- Bebês que olham mais para rostos e vozes aprendem melhor a reconhecer emoções e o tom de voz.
- Essas habilidades crescem ao longo da vida, junto com a maturação do cérebro e dos hormônios.
Atenção: ter alta habilidade social não é “boa” ou “má” por si só. A pessoa pode usar isso para ajudar ou para manipular. O contexto importa.
1.2. Abordagem “construtivista” (foco no que aprendemos com o ambiente)
Essa visão lembra que nós aprendemos com a cultura, as normas e as experiências.
- Às vezes agimos de forma subjetiva (seguindo crenças antigas).
- Outras vezes tentamos ser objetivos (como “pequenos cientistas” do dia a dia).
- A cultura muda como “lê-mos mentes”, usamos símbolos e valorizamos a autoexpressão.
Resumo: juntar biologia + psicologia + ambiente social dá um retrato mais justo do autismo e do TDAH.
2. O que é cognição social (o “superpacote”)
É um conjunto de habilidades:
- Teoria da Mente (mentalização): imaginar o que o outro pensa, sente e deseja.
- Empatia: entender e (às vezes) sentir com o outro.
- Reconhecimento de emoções: ler a cara e a voz das pessoas.
- Percepção/atribuição social: entender regras, intenções e contextos.
- Consciência social: saber o que combina com cada situação.
Outros temas próximos: motivação social, moralidade, linguagem no contexto (pragmática).
2.1. Tarefas simples e tarefas avançadas
- Simples: entender “crenças falsas” (saber que alguém pode acreditar em algo diferente da realidade).
- Avançadas: interpretar cenas sociais, tom de voz, sutilezas de expressão, ironia, etc.
Com o tempo, criaram-se testes mais ricos (muitos usando vídeos) para avaliar melhor adolescentes e adultos.
2.2. Dois modos: implícito e explícito
- Implícito: rápido, automático, sem pensar muito (ex.: captar um olhar).
- Explícito: devagar, consciente, exige atenção e memória (ex.: analisar uma situação).
Os dois modos existem e trabalham juntos, mas podem funcionar de forma diferente no autismo e no TDAH.
2.3. Dois tipos: cognitivo e afetivo
- Cognitivo: entender o que o outro pensa.
- Afetivo: sentir junto (compaixão/simpatia).
No autismo, muitas vezes o afetivo está ok, e o cognitivo é o mais difícil. Em outras condições pode ocorrer o contrário.
2.4. Hipo e hiper (de menos ou de mais)
- Hipossocial: a pessoa lê de menos os sinais sociais.
- Hipersocial: a pessoa lê além da conta (vê hostilidade onde não há, por exemplo).
3. Genética e neurobiologia (o que a ciência vê)
- Há influência genética em traços sociais (empatia, confiança), mas o ambiente também pesa muito.
- Substâncias como ocitocina e vasopressina estão ligadas a vínculo e saliência social, mas os resultados dos estudos são mistos.
- O chamado “cérebro social” envolve várias áreas (pré-frontal medial, temporoparietal, amígdala, cíngulo, ínsula, etc.) que se ativam quando pensamos sobre pessoas e emoções.
4. Condições do neurodesenvolvimento (onde entra autismo e TDAH)
São condições que começam no desenvolvimento do cérebro e podem afetar linguagem, atenção, controle motor e cognição social.
Incluem: autismo, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dificuldades de fala/linguagem, de aprendizagem (como dislexia), tiques e deficiência intelectual.
Ponto-chave: problemas acontecem muitas vezes por desencontro entre o jeito da pessoa e as exigências do ambiente (escola, trabalho, sociedade). Inclusão e respeito fazem grande diferença.
5. Cognição social no autismo e no TDAH
5.1. Autismo
- Desde cedo: sinais como dividir atenção e responder ao olhar podem ser diferentes.
- Em média, crianças, jovens e adultos autistas têm mais dificuldade em testes de emoções, tom de voz, leitura de estados mentais e compreensão de cenas sociais.
- Há grande variação entre pessoas autistas. Muitas aprendem estratégias que funcionam bem em situações simples, mas cansam em situações sociais muito exigentes.
- Em imagens cerebrais, aparecem diferenças de ativação e conectividade em redes do cérebro social.
5.2. TDAH
- O TDAH sempre estudou muito funções executivas (atenção, memória de trabalho, inibição).
- Em média, pessoas com TDAH também mostram desafios de cognição social, mas parte disso pode vir da atenção e da impulsividade.
- As diferenças no cérebro social são menos claras do que no autismo, e muitas vezes se misturam com áreas ligadas ao controle executivo.
5.3. Autismo x TDAH
- De forma geral, o autismo costuma mostrar desafios sociais mais fortes do que o TDAH.
- O TDAH fica “no meio do caminho” entre autismo e pessoas sem diagnóstico, variando com a idade e trajetória de desenvolvimento.
5.4. Autismo x Esquizofrenia (nota breve)
- São condições distintas, mas há sobreposições em alguns testes sociais.
- As redes do cérebro envolvidas podem ser diferentes, mesmo quando o comportamento nos testes parece parecido.
6. Implícito x Explícito no autismo (e empatia)
- Pessoas autistas podem ir bem em tarefas explícitas quando têm tempo e pistas claras, mas sofrer nas implícitas (rápidas e automáticas).
- Empatia afetiva (sentir com o outro) muitas vezes está preservada; o mais difícil costuma ser a empatia cognitiva (entender a cabeça do outro).
7. Idade, sexo, QI e outros fatores
- Melhora com a idade pode acontecer (depende do domínio).
- QI verbal ajuda em testes que exigem linguagem.
- Diferenças entre homens e mulheres existem em alguns estudos, mas não são conclusivas.
- Sono ruim atrapalha cognição social tanto no autismo quanto no TDAH.
8. Relação com outras funções
8.1. Funções executivas e “ritmo lento”
- Em autismo e TDAH, funções como atenção, memória de trabalho e controle influenciam muito o desempenho social.
- No TDAH, um estilo de ritmo cognitivo mais lento pode atrapalhar a leitura de situações sociais.
8.2. Linguagem, sensorial e “visão do todo”
- Ambientes com muita carga sensorial (barulho, luz) podem atrapalhar a atenção social.
- Linguagem pragmática (saber quando, como e o que dizer) se relaciona com a cognição social.
9. Ligação com os sintomas do autismo e do TDAH
- Em autismo, pior cognição social costuma se ligar a mais dificuldades de interação e comportamentos repetitivos.
- Em TDAH, a relação existe, mas é menos direta e muitas vezes passa pelas funções executivas.
10. Como avaliar (testes)
- Existem muitos testes e eles medem coisas diferentes (alguns exigem muita linguagem, outros são por vídeo).
- Ao avaliar, é preciso considerar QI, gênero, cultura e outras funções (atenção, memória).
- Há testes mais novos que usam filmes ou conversas reais para ficar mais próximo da vida cotidiana.
11. O que ajuda (intervenções)
11.1. TDAH
- Medicamentos estimulantes (como metilfenidato), quando indicados por médico, podem melhorar atenção e ajudar o desempenho em tarefas sociais (como mentalização e reconhecimento de emoções).
11.2. Autismo
- Treinos de habilidades sociais costumam ajudar, especialmente em reconhecimento de emoções e mentalização, com efeitos que podem durar.
- Teoria da Mente (mentalização): treinos específicos mostram melhora na tarefa, mas nem sempre isso vira melhora no dia a dia.
- Teatro, dança e movimento (imitar, sincronizar) têm mostrado ganhos em leitura de emoções e interação.
- Estimulação cerebral não invasiva (pesquisa em andamento) mostrou sinais promissores em alguns estudos, mas ainda é experimental.
12. Olhar crítico e próximos passos
- A maioria dos estudos foca no indivíduo (abordagem nativista). Falta olhar mais para o ambiente, estigma e mão dupla da comunicação:
- Pessoas autistas entre si muitas vezes se entendem melhor do que com pessoas não autistas.
- Pessoas sem diagnóstico também podem ter dificuldade de ler pessoas autistas.
- Isso se chama “Problema da Dupla Empatia”: não é só “o autista que não entende”; há falta de entendimento mútuo.
Como melhorar a pesquisa e a prática:
- Sempre considerar idade, sexo, QI, cultura e funções executivas.
- Definir melhor o que cada teste mede.
- Incluir implícito/ explícito, cognitivo/ afetivo e hipo/hiper como padrão.
- Estudar a ponte entre função executiva e cognição social.
- Dar mais foco ao ambiente (escola, família, sociedade) e à bidirecionalidade da comunicação.
Conclusão prática (para família, escola e profissionais)
- Para o autismo: apoiar a leitura de pistas sociais (olhar, tom de voz), usar vídeos e jogos de papéis, treinar habilidades sociais em contextos reais e com baixa sobrecarga sensorial.
- Para o TDAH: primeiro organizar atenção e impulsividade (rotina, estratégias e, quando indicado, medicamento). Depois, praticar mentalização e reconhecimento de emoções em atividades curtas e objetivas.
- Para todos: reduzir barulho visual e sonoro, explicar regras sociais de forma concreta, usar exemplos práticos, dar feedback gentil e imediato e promover inclusão de verdade.
Mensagem final: melhorar a vida social de quem tem autismo ou TDAH não é só “treinar a pessoa”. É ajustar o ambiente, diminuir o estigma e aprender a se entender — dos dois lados.
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