Primeiros indícios na infância
Identificar cedo faz toda a diferença no futuro da criança.
Por que observar cedo
Identificar os primeiros indícios permite acionar avaliação e suporte de forma mais eficiente, aproveitando a janela de maior neuroplasticidade e reduzindo trajetórias de risco. A AAP (Academia Americana de Pediatria) e o CDC recomendam rastreio específico para TEA nas consultas de 18 e 24 meses; não é “esperar para ver”, é observar e intervir cedo.
Nota prática: “Rastreio” não é diagnóstico. É um passo objetivo para decidir se vale investigar mais.
Mapa etário de indícios (do nascimento aos 7 anos)
Como ler este mapa
Cada criança tem seu ritmo. O que importa é o padrão consistente de indícios ao longo do tempo.
Regressão (perda de habilidades já adquiridas) em qualquer idade é sempre um alerta para avaliação.
Use este guia para observar e anotar comportamentos; leve os registros à consulta.
0–6 meses
Pouca resposta a rostos/vozes; sorrisos sociais escassos.
Menos troca de olhares em interação e menor interesse por pessoas.
Balbucio raro ou pouco variado nos momentos de contato.
(Objetivo: notar reciprocidade inicial nas interações do dia a dia.)
6–9 meses
Reciprocidade limitada: menos “conversa de turnos” (você fala, o bebê responde com sons/expressões).
Dificuldade de se acalmar com mediação social (voz, colo, cantigas).
Menor atenção compartilhada para rostos/gestos durante brincadeiras simples.
9–12 meses
Não responder ao nome com consistência.
Pouco uso de gestos comunicativos (mostrar, estender, acenar).
Menor busca espontânea por atenção conjunta (seguir o olhar, olhar para você e para o objeto de interesse).
12–15 meses
Pouca iniciativa de apontar para compartilhar interesse (e não só para pedir).
Brincadeira funcional/simbólica limitada (ex.: dar “comidinha” ao boneco, usar objetos “como se”).
Menos imitação de gestos/expressões e de rotinas simples.
15–18 meses
Poucas palavras funcionais ou uso muito restrito de sons/gestos para se comunicar.
Dificuldade em mostrar objetos para envolver o adulto (em vez de usar o adulto apenas como “ferramenta”).
Interesses estreitos emergindo; preferência por rotinas rígidas.
18–24 meses
Dificuldade em combinar palavras por volta dos 24 meses (quando o vocabulário funcional já deveria ampliar).
Brincadeira simbólica pouco variada; foco em partes de objetos (rodas, etiquetas).
Movimentos repetitivos (balanço, bater as mãos) em intensidades que interferem na interação.
Regressão: perda de palavras ou habilidades sociais previamente presentes.
24–36 meses
Resistência intensa a mudanças de rotina e transições.
Sensibilidades sensoriais (sons, luzes, texturas, cheiros) que complicam atividades cotidianas.
Dificuldade de compreender regras implícitas das brincadeiras com pares.
3–5 anos (pré-escola)
Ecolalia (repetição de frases) como principal estratégia de fala, com pouca flexibilidade comunicativa.
Interesse intenso por temas específicos, com pouca troca sobre outros assuntos.
Interações com pares mais paralelas que recíprocas; negociações de brincadeira mais difíceis.
5–7 anos (início do fundamental)
Diferenças mais visíveis em habilidades sociais (regras tácitas, turnos de conversa, humor).
Estilo cognitivo com forças (ex.: memorização, padrões, detalhe) e dificuldades (ex.: flexibilidade, funções executivas).
Sensório continua influenciando participação escolar e rotina familiar.
O que observar no dia a dia (4 eixos)
Comunicação – resposta ao nome, gestos espontâneos, apontar para compartilhar, combinar palavras.
Interação social – atenção compartilhada, imitação, busca ativa por envolvimento.
Comportamentos/interesses – repetição, rigidez, foco em partes/rotinas.
Sensório – hiper/hiporreatividade a sons, luzes, texturas; busca sensorial atípica.
Quando procurar avaliação
Procure o pediatra (ou neuropediatra/psiquiatra infantil/fono/TO) se você notar padrões persistentes nos pontos acima, perda de habilidades ou preocupações dos cuidadores/professores. O caminho recomendado é rastrear com instrumentos validados (ex.: M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses) e, se necessário, seguir para avaliação multidisciplinar.
Brasil (SUS): o Ministério da Saúde orienta identificação precoce e acesso à Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência. Procure a unidade básica para encaminhamento.
O que já dá para fazer enquanto aguarda
Intervenções mediadas por pais focadas em responsividade, atenção conjunta e comunicação podem reduzir a gravidade de traços e melhorar desfechos no início da infância. Evidência de ensaio clínico randomizado (iBASIS-VIPP) com bebês de 9–14 meses em risco.
Rotina previsível, brincadeiras de turnos, leitura compartilhada, ampliar gestos e nomear emoções/ações.
Checar audição e visão sempre que houver dúvida.
Armadilhas comuns
“Ele é só tímido/trocadilíngue, vai falar quando quiser.” → Bilinguismo não causa TEA; timidez isolada não explica padrões persistentes nos 4 eixos. Rastreio é prudente.
“Se eu rastrear, vão rotular.” → Rastrear abre portas para suporte; não é rótulo nem sentença.
“Vamos esperar mais seis meses.” → A recomendação internacional é não adiar quando há indícios consistentes ou regressão.
Visão positiva
Crianças no espectro frequentemente apresentam forças (memória, visão de detalhe, perseverança, padrões). Com informação clara, apoio cedo e expectativas realistas, famílias conseguem reduzir stress, ampliar a comunicação e melhorar qualidade de vida.
Para profissionais (referência rápida)
Rastreio universal específico para TEA: 18 e 24 meses (M-CHAT-R/F).
Vigilância do desenvolvimento em todas as consultas.
Encaminhamento ágil para avaliação multidisciplinar quando risco moderado/alto ou regressão.
Principais fontes
AAP (2020) – Recomendações clínicas e rastreio aos 18 e 24 meses. publications.aap.org
CDC (2025) – Orientações de rastreio e sinais de alerta. CDC
WHO (2025) – Ficha técnica sobre TEA e identificação precoce. Organização Mundial da Saúde
Residência Pediátrica (2022) – Revisão brasileira sobre instrumentos de identificação precoce (inclui PREAUT, POEMS, Q-CHAT, M-CHAT, etc.). residenciapediatrica.com.br
M-CHAT™ oficial – Diretrizes de uso do instrumento. M-CHAT™
Ministério da Saúde (Brasil) – Página TEA e materiais de apoio na Rede SUS. Serviços e Informações do Brasil
JAMA Pediatrics (2021) – Ensaio clínico iBASIS-VIPP (intervenção mediada por pais em bebês em risco). JAMA Network
Teste
Escolha a faixa etária e marque as opções que mais se aproximam da sua observação.
Aviso: este teste é uma triagem educativa. Não é diagnóstico.
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