Dor Persistente no Autismo: Compreensão Clínica e Abordagens Atuais
A dor crónica é um dos aspectos menos discutidos e frequentemente negligenciados na avaliação clínica de pessoas com autismo. Embora as manifestações comportamentais do TEA recebam amplo foco, o impacto de condições dolorosas persistentes no bem-estar, comportamento e cognição é amplamente subestimado.
Estudos recentes vêm demonstrando que muitas pessoas autistas apresentam alterações no processamento da dor, tanto em intensidade quanto em expressão, o que contribui para diagnósticos tardios, tratamentos inadequados e sofrimento silencioso.
🔍 Fisiologia e Neurobiologia da Dor no TEA
A dor é uma experiência sensorial e emocional complexa. No autismo, os sistemas neurossensoriais que regulam os estímulos dolorosos podem funcionar de forma atípica.
🔬 Mecanismos propostos:
Disfunção no sistema nociceptivo central: Algumas evidências sugerem uma hipoatividade ou hiperatividade no tálamo e córtex somatossensorial, com impacto direto na modulação da dor.
Neuroinflamação persistente: Estudos com biomarcadores inflamatórios revelam níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-alfa) em parte da população autista (Ashwood et al., J. Neuroinflammation, 2011).
Alterações na conectividade cerebral: A dor crónica pode estar associada a disfunções na rede de processamento da dor (pain matrix), incluindo áreas como amígdala, ínsula e córtex pré-frontal (Ecker et al., Brain, 2015).
Um estudo do King’s College London demonstrou que adolescentes com TEA processam a dor com menor ativação cortical em regiões típicas da empatia e da consciência corporal, indicando não ausência de dor, mas sim um padrão distinto de percepção.
📈 Prevalência e Condições Associadas
A dor crónica no TEA é frequentemente subdiagnosticada por ser expressa de formas atípicas: agitação, isolamento, gritos, automutilação ou recusa alimentar podem ser manifestações não verbais de sofrimento físico.
Condições frequentes relacionadas à dor no autismo:
🔹 Constipação / Disfunção Intestinal
Prevalência aproximada: 30–70%
Tipo de dor: Dor abdominal crónica
🔹 Enxaqueca
Prevalência aproximada: 20–40%
Tipo de dor: Dor de cabeça episódica ou constante
🔹 Fibromialgia ou Dor Muscular Difusa
Prevalência aproximada: Ainda em estudo
Tipo de dor: Dor musculoesquelética persistente
🔹 Disfunções Articulares (ex.: Ehlers-Danlos)
Prevalência aproximada: Subestimada
Tipo de dor: Dor articular e fadiga crónica
🔹 Dismenorreia / Dor Pélvica
Prevalência aproximada: 40–60% em adolescentes AFAB
Tipo de dor: Dor pélvica e abdominal cíclica
🔹 Hipersensibilidade Cutânea
Prevalência aproximada: Alta em pessoas não verbais
Tipo de dor: Dor ao toque leve, calor ou tecidos
🩺 Expressão Clínica da Dor em Autistas
A comunicação da dor pode não seguir os padrões convencionais. Muitos pacientes não verbalizam, ou verbalizam de forma metafórica (“meu corpo está gritando”) ou simbólica (rejeição de roupas, agressividade súbita).
Sinais clínicos de alerta:
Mudanças abruptas de comportamento sem causa aparente
Comportamentos autolesivos em áreas específicas do corpo
Afastamento social ou apatia súbita
Padrões incomuns de movimentação ou rigidez muscular
É fundamental treinar profissionais para reconhecer a expressão não convencional da dor.
⚕️ Avaliação e Diagnóstico
Ferramentas clínicas adaptadas:
PAINAD (Pain Assessment in Advanced Dementia): adaptável para autistas não verbais
FLACC Scale (Face, Legs, Activity, Cry, Consolability): útil em crianças pequenas com TEA
Entrevistas estruturadas com cuidadores e uso de vídeos para observar padrões
A imagem corporal no TEA pode ser alterada, o que impacta na localização da dor. Avaliações físicas devem ser acompanhadas por análise contextual e comportamental.
💊 Tratamento Integrado da Dor Crónica
1. Intervenção farmacológica
Paracetamol, ibuprofeno, analgésicos tópicos: em casos leves
Amitriptilina, gabapentina, pregabalina: moduladores de dor neuropática, usados com cautela
Canabinoides medicinais: em uso experimental em dor refratária e estados inflamatórios crónicos
Estudos do Sackler Institute for Developmental Psychobiology sugerem que o uso de CBD pode modular a dor crónica sem efeitos psicoativos, especialmente em pacientes com hipersensibilidade sensorial.
2. Abordagem fisioterapêutica e ocupacional
Técnicas de liberação miofascial
Exercícios de propriocepção e consciência corporal
Integração sensorial com foco em regulação autonómica
3. Modulação comportamental e psicoeducação
Técnicas de comunicação alternativa para verbalizar a dor
Ensinar identificação e localização da dor com pictogramas ou escalas visuais
Regulação emocional como suporte à percepção corporal
🧪 Pesquisas Emergentes
Neuroimagem funcional (fMRI) para mapeamento da dor em TEA
Uso de dispositivos wearable para monitorar sinais fisiológicos relacionados à dor
Microbioma e dor crónica: investigações sobre a relação entre disbiose intestinal e sintomas dolorosos em autistas
Modulação por estimulação transcraniana (tDCS/rTMS): em avaliação para dor neuropática e fibromialgia com TEA
📍 Conclusão
A dor crónica em pessoas autistas é real, mensurável e, na maioria das vezes, invisível ao olhar clínico não treinado. O desafio não está apenas em tratar, mas em reconhecer. Ignorar os sinais de dor é perpetuar sofrimento e aumentar o risco de comorbidades secundárias, como depressão, isolamento ou agressividade.
O avanço clínico depende de uma medicina que respeite a complexidade neurobiológica da dor e a diversidade na forma de expressá-la. Nenhum paciente deve ser excluído do alívio por não se comunicar “como esperado”.
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